Sobre a colonialidade do ser, de Nelson Maldonado-Torres, é um texto fundamental do pensamento decolonial contemporâneo. Nele, o autor argumenta que a modernidade não pode ser compreendida separadamente da colonialidade inaugurada com a colonização das Américas a partir de 1492. Contra narrativas eurocêntricas que apresentam a modernidade como fruto exclusivo de processos internos da Europa, Maldonado-Torres sustenta a inseparabilidade entre modernidade e colonialidade, daí a noção de modernidade/colonialidade.
A colonialidade não aparece como desvio ou efeito colateral, mas como a própria condição constitutiva da modernidade: sua “seiva”, aquilo que a alimenta estruturalmente. Nesse sentido, o marco originário não é o cogito cartesiano de René Descartes, mas aquilo que Enrique Dussel denominou ego conquiro, o “eu conquisto” que precede e fundamenta o “eu penso”. Antes da afirmação epistemológica do sujeito moderno, há a afirmação violenta de um sujeito conquistador que submete povos, territórios e saberes.
Ao deslocar o eixo interpretativo da modernidade para suas bases coloniais, Maldonado-Torres evidencia que as estruturas político-econômicas e epistemológicas de dominação da não-Europa pela Europa são constitutivas do projeto moderno. Assim, pensar a colonialidade do ser é enfrentar as marcas ontológicas dessa história, as formas pelas quais a desumanização, a racialização e a hierarquização foram inscritas na própria compreensão do humano.
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